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Plano Geral de Drenagem de Lisboa: uma resposta estrutural para mitigar um risco sistémico

Marta Clemente18/05/2026

O Plano Geral de Drenagem de Lisboa aproxima a capital portuguesa de um novo paradigma na gestão de águas pluviais. Entre soluções de engenharia de elevada complexidade e os primeiros sinais de eficácia, o projeto afirma-se como uma resposta estrutural a um problema histórico, ainda que o futuro, marcado pelas alterações climáticas, continue a colocar desafios.

Foto: Nuno Correia/CML

Foto: Nuno Correia/CML.

O Plano Geral de Drenagem de Lisboa (PGDL 2016-2030) surge como resposta a um problema estrutural da cidade: a recorrência de inundações associadas a episódios de precipitação intensa, com impactos significativos no funcionamento urbano. Zonas como a Baixa e Alcântara tornaram-se exemplos evidentes da vulnerabilidade da rede de drenagem.

Esta realidade tende a agravar-se, não só pela crescente impermeabilização do território, mas também pela intensificação dos fenómenos meteorológicos extremos, reforçando a necessidade de uma resposta estruturada.

Como explica a Câmara Municipal de Lisboa, o plano visava “diagnosticar a situação da rede de drenagem de Lisboa, especialmente aquando da ocorrência de eventos pluviais que provocam inundações de impacto relevante na cidade”, propondo “soluções técnicas para corrigir as anomalias identificadas”. A estratégia definida assentou em quatro vetores de intervenção – controlo na origem, transvase de bacias, reabilitação da rede e melhoria do conhecimento do sistema – com o objetivo de “munir a cidade de Lisboa de condições adequadas para enfrentar as inundações, acentuadas pelas alterações climáticas”.

Com um investimento estimado em cerca de 250 milhões de euros – financiado em aproximadamente 50% pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) – e um horizonte de execução de 15 anos, o PGDL constitui uma das mais relevantes intervenções de engenharia hidráulica urbana no país.

A empreitada dos túneis foi adjudicada ao consórcio Mota-Engil / SPIE Batignolles Internacional, com o apoio de entidades como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), o Instituto da Construção da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).

A solução atual resulta de uma evolução face ao plano de 2008, que previa intervenções dimensionadas para um período de retorno de 10 anos e que não foi implementado. A revisão de 2015 introduziu a construção de grandes túneis de drenagem e um dimensionamento orientado para a ‘chuvada do século’.

A revisão de 2015 do PGDL introduziu a construção de grandes túneis de drenagem e um dimensionamento orientado para a ‘chuvada do século’

Primeiras medidas com impacto na rede

Apesar de as infraestruturas mais mediáticas – os túneis de drenagem – ainda não se encontrarem em operação, uma parte significativa das intervenções previstas no PGDL já foi executada, com impacto direto na capacidade de resposta da rede.

No âmbito do controlo na origem, destacam-se as bacias de retenção e infiltração instaladas na Ameixoeira, no Alto da Ajuda e na zona da Praça de Espanha. Estas soluções permitem reduzir os caudais de ponta, amortecendo o volume de água que entra na rede durante episódios de precipitação intensa.

Paralelamente à construção das grandes infraestruturas subterrâneas, o PGDL integrou um conjunto de intervenções de reabilitação e reforço da rede conceptual de drenagem, dirigidas a pontos críticos identificados no sistema existente. Entre estas, destaca-se o reforço da rede na Avenida Infante D. Henrique e na Avenida de Berlim, que incluiu a construção de um microtúnel com 320 metros de comprimento e 1,50 metros de diâmetro, bem como a reabilitação e reconstrução de caixas de desvio de caudal em quatro zonas a montante do Parque das Nações.

O plano contemplou ainda a reabilitação estrutural de parte do coletor da Rua de São José, o reforço e reabilitação da drenagem na Estrada das Laranjeiras – incluindo um túnel com cerca de 150 metros de extensão e aproximadamente 2,5 metros de diâmetro –, bem como a reformulação da caixa de transição da rede de drenagem na Rua D. Duarte. A estas intervenções soma-se ainda a reformulação do coletor localizado junto ao Convento do Beato, numa lógica de modernização progressiva da rede e de correção de vulnerabilidades acumuladas.

A este conjunto soma-se a atualização e digitalização do cadastro da rede de drenagem – um passo essencial para melhorar o conhecimento do sistema e suportar decisões operacionais mais eficazes.

Em curso está ainda a implementação de um sistema de monitorização e aviso, que permitirá acompanhar em tempo real o comportamento da rede durante eventos pluviais.

Os túneis que redesenham a drenagem da cidade

Foto: João Barata/CML
Foto: João Barata/CML.

O elemento mais estruturante do PGDL reside, contudo, na construção dos dois túneis de drenagem, concebidos para materializar o princípio de transvase de bacias.

Com um diâmetro interno de 5,5 metros e uma extensão total de cerca de seis quilómetros, estas infraestruturas subterrâneas vão estabelecer ligações entre as zonas mais elevadas da cidade, Monsanto e Chelas, e os pontos de descarga no rio Tejo, em Santa Apolónia e no Beato.

O túnel Monsanto–Santa Apolónia, com aproximadamente cinco quilómetros, constitui a principal artéria do sistema, enquanto o túnel Chelas–Beato, com cerca de um quilómetro, complementa o esquema hidráulico. O comissionamento de ambos encontra-se previsto para os invernos de 2027 e 2029, respetivamente.

Segundo o enquadramento técnico do plano, estes túneis desenvolvem-se a profundidades médias entre 30 e 40 metros, permitindo atravessar a cidade sem interferir com as infraestruturas existentes. Ao longo do percurso, são integrados pontos de captação adicionais – nomeadamente em zonas como a Avenida da Liberdade, Santa Marta ou Avenida Almirante Reis – que permitem recolher e encaminhar caudais provenientes de diferentes áreas de drenagem da cidade.

O sistema permite gerir grandes volumes de água durante picos de precipitação, desviando-os das zonas críticas onde tradicionalmente ocorrem inundações.

Tuneladora ‘h2Oli’, o coração da escavação subterrânea

Se os túneis constituem a espinha dorsal do PGDL, a sua execução assenta num elemento central: a tuneladora Creg/Wirth, batizada como ‘h2Oli’, que a Maquinter Portugal forneceu ao Consórcio Mota-Engil/Spie Batignolles. O equipamento foi especificamente mobilizado para a construção dos principais troços subterrâneos do sistema. 

Com 130 metros de comprimento, 6,4 metros de diâmetro externo, uma cabeça de corte de 70 toneladas, e um ritmo de avanço de 10 metros por dia, a tuneladora permitiu a execução contínua dos túneis, garantindo simultaneamente elevados níveis de segurança e controlo geotécnico - ao longo do traçado, foram instalados cerca de 3300 anéis de revestimento, que asseguram a estabilidade estrutural das galerias.

A utilização deste tipo de equipamento, com capacidade para trabalhar 70 metros abaixo do solo durante os trabalhos de perfuração, revelou-se determinante para minimizar interferências à superfície, num contexto urbano particularmente sensível.

Batizada com o nome ‘h2Oli’...
Batizada com o nome ‘h2Oli’, a tuneladora que a Maquinter Portugal forneceu ao Consórcio Mota-Engil/Spie Batignolles revelou-se determinante para minimizar interferências à superfície, num contexto urbano particularmente sensível.

Benefícios adicionais: qualidade da água e reutilização

Para além da mitigação de cheias, os túneis integram soluções que contribuem para a melhoria ambiental. As chamadas bacias antipoluição permitem captar as primeiras águas da chuva – geralmente mais contaminadas – armazenando-as temporariamente antes de serem encaminhadas para tratamento em ETAR. 

De acordo com o documento técnico do plano, este processo contribui para reduzir a carga poluente descarregada no rio Tejo, aumentando simultaneamente os volumes de água tratada.

Adicionalmente, o sistema prevê a utilização de água reciclada para fins urbanos, como lavagem de pavimentos, rega ou combate a incêndios. Para tal, será instalada uma rede dedicada que permitirá transportar água tratada em sentido inverso ao da drenagem, armazenando-a em depósitos associados às bacias antipoluição.

Desafios de execução em contexto urbano

A execução do PGDL, em particular dos túneis de drenagem, enfrentou desafios significativos, típicos de uma obra geotécnica em meio urbano. Entre as principais dificuldades identificadas pela Câmara Municipal de Lisboa destacam-se os achados arqueológicos, bem como a introdução de nova legislação relativa ao tratamento de solos, já após o início da empreitada, o que implicou ajustamentos ao longo da execução. 

A estes fatores somam-se os constrangimentos associados à própria complexidade da obra, nomeadamente em termos geológicos, geotécnicos e hidrológicos, bem como à sua realização em várias frentes de trabalho – num total de sete – com impactos na circulação e no funcionamento da cidade. No pico de atividade, estiveram envolvidos cerca de 800 trabalhadores, exigindo um elevado nível de coordenação.

Efeitos já visíveis no terreno

Embora os túneis ainda não estejam operacionais, os efeitos do PGDL começam já a ser observados. A escavação do túnel Monsanto–Santa Apolónia foi concluída em agosto de 2025, mas, como já foi referido e foi esclarecido pelo município, “ainda nenhum dos túneis se encontra em funcionamento”. 

Ainda assim, o comportamento da cidade durante o último inverno revelou-se significativo, com ausência de episódios relevantes de inundação. Segundo o município, “na presente data, os bons resultados de resiliência aos eventos pluviais ocorridos, são devido à conclusão das outras intervenções”, o que sugere que as soluções distribuídas – nomeadamente as bacias de retenção e o reforço da rede – já estão a produzir efeitos concretos.

Sistema desenhado para eventos extremos

Foto: Nuno Correia/CML
Foto: Nuno Correia/CML.

Os túneis de drenagem foram projetados para responder a chuvas muito intensas, que ocorrem, em média, uma vez a cada 100 anos – a chamada ‘chuvada do século’. Este critério procura preparar a cidade para fenómenos climáticos cada vez mais exigentes. 

Neste contexto, a Câmara Municipal de Lisboa manifesta confiança na solução adotada, referindo existir “forte convicção” de que, uma vez concluídas todas as intervenções e assegurada a sua manutenção, o sistema permitirá mitigar significativamente os efeitos das inundações.

Assim, o reconhecimento da crescente imprevisibilidade dos eventos pluviais, associada às alterações climáticas, reforça a importância de uma gestão contínua do sistema.

A implementação de mecanismos de monitorização e aviso, atualmente em desenvolvimento, deverá contribuir para melhorar a capacidade de resposta da rede de drenagem.

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